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Ao
passar por algumas escolas públicas de Ouro Preto, pode se perceber um
pequeno e quase imperceptível quadrado amarelo-claro ou uma pequena antena
parabólica. Presentes na paisagem urbana há quase um ano, esses discretos
objetos são sinais de um dos mais ousados e importantes projetos de inclusão
digital implantados no País: o Projeto Ouro Preto – Cidade Digital. Costurando
parcerias e cumplicidades, como convém às tradições mineiras, a Universidade
Federal de Ouro Preto (UFOP) constrói o que pode vir a ser um dos caminhos para
possibilitar um salto de qualidade na educação brasileira, além de permitir
também aos cidadãos, o acesso a mais vasta rede de conhecimento e serviços que
já se criou.O Projeto Ouro Preto – Cidade Digital é resultado da parceria entre
o Ministério da Educação, por meio da Secretaria de Educação a Distância (Seed)
e a Intel Semicondutores do Brasil - empresa fabricante de componentes
utilizados na indústria de informática. É coordenado pela UFOP, em parceria com
a Prefeitura Municipal e o Centro Federal de Educação Tecnológica de Ouro Preto
(Cefet-OP).
Foram
instalados computadores em escolas da cidade e no Núcleo de Tecnologia
Educacional por parte do Programa Nacional de Informática em Educação – ProInfo
da /Mec, e das ações do governo estadual na informatização das escolas
estaduais e da Prefeitura nas escolas municipais. A instalação de uma rede sem
fio, que utiliza parcialmente a tecnologia WiMax (ainda disponível em caráter
experimental), foi patrocinada pela Intel. A capacitação de professores,
desenvolvidos pela UFOP, por meio do Centro de Educação Aberta e a Distância,
somam-se aos programas da Seed/Mec e da Intel. Esses esforços convergem com os
da Prefeitura Municipal, que instituiu este ano como o Ano da Educação em Ouro
Preto e consolida a Casa do Professor como espaço único de formação e
capacitação dos professores da cidade. Diversos agentes, milhares de
beneficiários.
Mas
esse projeto vai além. Cria condições para a introdução eficaz de modernas
Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) no ambiente educacional e também
desenvolve metodologias para a avaliação dos impactos disso em larga escala.
Poucas cidades no Brasil atingem o grau de informatização e capacitação no uso
de tecnologias que acontece em Ouro Preto. Na cidade histórica, um laboratório
único vai desenvolver alternativas metodológicas e criar novas ferramentas para
acesso aos conteúdos disponíveis na Internet.
Apesar
de parecer óbvio, não é necessariamente claro o porquê de se desenvolver um
modelo básico, replicável em escala nacional, para a introdução das TIC na
educação. Pode-se perguntar se não seríamos capazes de construir melhorias
iguais ou mais significativas na educação com outras estratégias ou programas,
às vezes com custo menor? A resposta parte de dois pontos: nunca, na história
da Humanidade, houve um momento no qual praticamente todo o conhecimento
produzido em escala planetária estivesse disponível e alcançável por um clique
de botão. Em segundo lugar, nunca se presenciou uma situação em que os
aprendizes ou educandos são autoridades e manejam com mais destreza do que os
educadores algo que é estrategicamente importante: as ferramentas para acessar
esse conhecimento.
Pais e
educadores tendem a ficar perplexos com a facilidade, rapidez e a familiaridade
com que crianças comandam computadores e equipamentos eletrônicos. Mesmo
crianças carentes, que não têm esses equipamentos em suas casas, tão logo se
encontrem frente a um deles, em pouco tempo já navegam pelo mundo virtual, se
comunicando, construindo e explorando conhecimentos e se divertindo. Eles sabem
como poucos abrir as portas desse novo espaço, sair por seus caminhos,
explorá-los ou mesmo construir seus próprios caminhos. Certamente, o
aprendizado, a construção do conhecimento, o exercício da cidadania, a
democracia representativa, o controle e o acesso às instituições públicas, o
acesso aos serviços privados e tudo o que se pode imaginar que envolve a esfera
pública e privada passará necessariamente por esse novo espaço. Assim, a
formação do cidadão do futuro exigirá o domínio e o uso da tecnologia. Uma
ruptura se anuncia e a educação é o meio seguro de construir bases sólidas para
que essa ruptura se dê em benefício de todos.
Baseado
na Educação como eixo articulador, o Projeto também busca criar oportunidades
para camadas da população que foram historicamente excluídas deste universo. Os
programas desenvolvidos pelo governo federal para criação de telecentros, como
o Casa Brasil, ou implementados por Organizações Não-Governamentais, serão
articulados com as iniciativas do Projeto, a fim de ter um ambiente local
conectado que permita ao cidadão explorar as diversas iniciativas e
possibilidades, mas principalmente, voltado para a formação das pessoas,
inclusive do ponto de vista profissionalizante. Uma preocupação fundamental
nessa ação é a garantia de sustentabilidade dos projetos, para que os mesmos
não se esgotem depois de um certo tempo, como ocorre em diversas iniciativas.
Sustentabilidade.
Esse é um tema chave. Iniciativas de inclusão digital têm problemas para
garantir, a médio e longo prazo, os meios para se manter sem que seja
necessário o constante investimento público. O projeto Ouro Preto – Cidade
Digital tem como um de seus elementos chaves, essa preocupação. Do ponto de
vista educacional, é claro que os recursos deverão ser permanentemente
originados do poder público. Contudo, o mesmo não se dá do ponto de vista mais
geral. Se o investimento público pode ser um ponto de partida importante, a
criação de articulações com setores privados que percebam suas possibilidades
comerciais é uma preocupação existente desde o começo do projeto. Por isso,
criamos um modelo de negócios que permite a reprodução desse projeto em
diversas outras cidades e localidades do País, deixando de ser refém de grandes
interesses comerciais, ditados pelas grandes companhias de telecomunicação e
ainda procurando desenvolver potencialidades locais, inclusive empresariais.
Esse é o caminho que poderá garantir o surgimento e durabilidade de iniciativas
que disponibilizem o acesso ao conhecimento e serviços para amplas parcelas da
população.
Ouro
Preto tem em seu passado iniciativas históricas que sinalizaram caminhos
fundamentais para a nação brasileira. A luta pela construção da liberdade e da
cidadania tem fincadas aqui raízes profundas. O futuro já anuncia novas
práticas: um novo e vasto mundo de possibilidades para a edificação de novos
homens e mulheres. O futuro exige, mais uma vez, que finquemos nessas terras as
raízes de sua antecipação. Com prudência e cautela, sem muito alarde, mas com
toda a obstinação, é o que tem sido feito.
Professor Américo Bernardes Departamento de Física (UFOP) |